Se eu morresse amanhã?

Se eu morresse amanhã, nada mudaria no mundo. Os gerentes continuariam gerenciando, os cozinheiros cozinhando, os pilotos pilotando, e só minha mãe cantaria mais triste, e meu pai perderia a graça. E meus amigos diriam "coitadinho, tão cedo!".

É sempre cedo. 115 anos ainda é cedo, mas só 19 é muito mais.

Se eu morresse amanhã ficaria faltando à carteira de motorista. E mais algumas coisas que só eu sei que comecei. O que me mataria amanhã Seria um assalto, sequestro, ou coisa pior? Ou seria dor da alma? Ou será que isso não mata?

Se eu morresse amanhã teria muito pouco a deixar. Minha sorte, nesse caso, seria não ter herdeiros.

Se eu morresse amanhã e descobrisse enfim, o que é que a vida é. Se há qualquer coisa depois, se eu visse Deus, eu não ia voltar para contar. Voto pela criatividade das teorias!

Se eu morresse amanhã, gostaria que doassem desde os meus rins até minha pele, até meus olhos, até minhas unhas, se isso fosse ter qualquer finalidade. Se eu morresse amanhã, que eu pelo menos ainda pudesse ser útil.

Se eu morresse amanhã seria uma grande sacanagem! Logo eu, que tenho tantas vontades, logo eu que vivi tão pouco! Logo eu, que me considero tão imune, logo eu que sou tão normal.

Melhor eu do que alguém que ainda vai inventar o teletransporte, a máquina de fazer tempo, a cura das dores irremediáveis. Se isso fosse aliviar as estatísticas, melhor eu. Não sem dor, e com humildade, pois não espero tanto assim da minha existência.

Se eu morresse amanhã, seria um livro ruim. Sem protagonista, e o fim da história.

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